Vem. Da um cheiro, um beijo.
Eram todos os dias, e todos eles, com a mesma rotina. Mesmos horários, mesmos tiques taques, mesma demora, mesmo amor. Nada nunca mudou pra mim, até que um dia eu levantei da minha cama com aquela vontade extraordinária de mudar. Acabei saindo pela primeira vez no ano, de roupa de ginástica e fui correr no parque, me senti bonita e realmente livre, repito, pela primeira vez no ano. Corri mais ou menos por uma hora com os fones de ouvido completamente incrustados no meu ouvido para que eu felizmente, não conseguisse ouvir aquele poluído barulho do “lado de fora”, se é que me entende. Cheguei em casa, dei aquele daqueles pulos exagerados no sofá, coloquei as pernas entrelaçadas para cima e peguei depressa o telefone e devo -não me lembro certamente- ter ligado para umas nove amigas. “Ei, bora sair, esplandecer um pouquinho?” A resposta foi algo como: “VOCÊ, SAIR? O que deu em você para querer sair?” Não levei como ofensa, aliás, é mais ou menos assim mesmo. Mas eu tava afim, e ai? “Bora né!”. Tudo muito bom, me aprontei como se eu estivesse me aprontando pela primeira vez na minha vida inteira. Como se eu tivesse descobrindo a tal da maquiagem pela primeira vez na vida, como se eu nunca tivesse vestido um vestido colado e curto com salto alto e passado um batom vermelho sem dó alguma. “O que um amor não faz com a gente hein?” Fui sem dó nem piedade, com as minhas nove amigas todas mega animadas e realmente surpresas por me ver sair de casa depois de um longo tempo e um bom sono de beleza realmente cansativo por mais ou menos uns quatro a cinco meses. Mas deu vontade. Não sei o que deu em mim, ou que eu estava exatamente fazendo, se estava fazendo certo ou o tal do completamente errado. Para mim naquele momento era um tanto faz totalmente do normal como qualquer menina -garota, ou mulher, como você preferir chamar- de 19 anos faria saindo em uma sexta-feira à noite. De longe a gente dá aquela “limpa” avistada no gatinho da fila ou do gatinho que está logo atrás ou logo a sua frente, dá aquela analisada básica que não mata ninguém de baixo pra cima, para na parte dos glúteos, ai sobe mais um pouquinho até o topo da cabeça, e volta pros glúteos novamente tentando desviar o olhar e perguntando se ninguém viu pra comentar com as amigas. Nesse dia em que resolvi sair, eu te avistei de longe, sem nenhuma intenção. Você não fazia meu tipo, era só mais um filhinho de papai tentando aparecer com uma garrafa de ice na mão e lá dentro tomaria um pote de sorvete de chocolate sem dó nem piedade. Mas você ficava me encarando de uma forma com que me deixava sem graça, e eu ficava, sem querer, me perguntando o que diabos você tanto olhava pra mim. Te ignorei, ou melhor, tentei ignorar, porque de cinco em cinco segundos a minha cabeça e meu olhar virava em sua direção esperando o seu olho se encontrar com o meu. Que sensação maluca cara, nunca tinha sentido isso. Parece que você era do além, que você não era daqui e te admito, por questão de segundos eu pensei: “Caraca, é uma assombração.” Eu só posso estar louca. Que que eu to fazendo aqui mesmo? A danada da fila não andava, e você, nem entrado nela ainda tinha, e depois de uns longos vinte minutos e exatamente quarenta e sete segundos eu te deixei de lado e entrei pra curtir aquela noite que eu mesma planejei. Curti a noite inteira, melhor noite com as amigas impossível, papo vai papo vem, fofoca, babado, aquelas coisas todas de um grupo de amigas que não se vêem a muito tempo. Sabe como é né? A conversa não acaba, e um papo que não tem nada a ver, gera um outro que não tem nada a ver mais ainda. Normal. Devem ter se passado cerca de duas horas e quarenta e poucos minutos e milésimos de segundo quando te avistei de longe de novo. Você não estava me olhando, é como se tivesse me perdido e nem lembrado mais de mim, pensei naquele momento: “Ah, eu era só mais uma isca pra noite dele.” Não sei se pensei certo ou errado, até parece que vou encontrar o amor da minha vida em uma balada, em plena 2:34 da manhã. Ao mesmo tempo em que deu aquele alívio de você não estar me olhando, deu aquela angústiazinha que uma parte de mim queria que você estivesse olhando. Só pra dar aquele gostinho de mulher mais um pouquinho. Te perdi de vista, o tempo foi passando e esqueci que você existia. Eram 5:57 da manhã, e você ainda estava lá, de butuca como se estivesse me esperando a noite inteira, até que, eu passei pela porta de saída e você segurou pelo meu braço. Você segurou com tanta força que, tenho a marca comigo até hoje, você me deu uma olhada como se, se…Sei lá a olhada que você me deu, me deu aquela olhada de cachorro abandonado, e eu rapidamente pedi para que você soltasse o meu braço pois estava doendo, obviamente. Você ficou por uns dois minutos sem falar completamente nada e eu fiquei ali que nem uma idiota ou boba te encarando esperando sua iniciativa para falar algo. Finalmente dei as costas pra você e você falou algo como “ééééééé…” e eu te olhei com uma cara de tipo “continua garoto” e você não falou nada. Fui embora olhando para trás como se eu ainda tivesse um tiquitinho de esperança viva aqui em mim. Cheguei em casa lá pelas 6:20 e fui dormir, dormir com aquela cena de você segurando o meu braço pendurada na minha cabeça. Não fazia sentido, mas eu, como costume, gostava exatamente disso, do que não tinha sentido nenhum e do que não combinava comigo. Eu, como sempre, gostava do que não se encaixava, mas você… sei lá né. Eu tinha que ir ao supermercado, isso, em uma segunda-feira umas três ou quatro semanas depois de ter te visto pela primeira vez em uma fila. Em uma fila. CARA, eu uma F-I-L-A. Desde quando eu posso encontrar algo pra minha vida em uma fila? Desde de três ou quatro semanas atrás. Fui ao supermercado de shorts e chinela uma blusa e cabelo preso, toda bagunçada e nada a ver com o que eu costumava a me vestir, fui despojada e completamente confortável. Debrucei-me sobre o carrinho peguei minha listinha e fui. Leite condensado, achocolatado, leite, fini, ruffles, springles, maça, banana, laranja, melancia, até que a gente meio se enxergou por buraquinhos de uma prateleira que estava praticamente vazia. Você me olhou com uma cara de que me conhecia de algum lugar e eu te olhei com aquela cara de que estava te achando completamente doido. Você, depois de uns 30 minutos, completamente sozinho, se apresentou a mim. Pediu meu telefone e eu me senti a mulher mais e muito mais feliz do que qualquer outra. Senti que reencontrei o “amor”. Não demorou muito tempo pra você me ligar, e chamar pra sair, nada melhor do que pro mesmo lugar aonde nos conhecemos não é mesmo? Mas eu disse não. Charminho. Pra ver se você ia tentar de novo, pra ver se sei lá, você ia insistir em mim. E foi o que aconteceu, eu aceitei, você me chamou pra ir pra sua casa, assistir um filme. Eu aceitei, gostei da idéia, perguntei qual e você apenas disse:
- Aquele que estava no cinema – Óbvio que estava no cinema.
- Mas qual? Tem tantos que estavam no cinema.
- Aquele lá que tem aquela mulher lá, aquela gostosa que, ah sei lá, vem, você vai gostar.
- (risos) Ok.
- Beleza, te pego as oito e já é.
Famoso jeitinho de filinho de papai ou daquele cara que quando realmente gosta da garota, ele gosta, me entende? Meio clichê, mas bem, bem mesmo, real. Você me apanhou aqui em casa exatamente às 20:21. É. As 20:21. Chegamos na sua casa e era aquele filme bem meloso que a maioria dos garotos não gostam sabe? E que a maioria das garotas se matam de tanto chorar. Eu não estava bem pra um filme daquele jeito, pedi pra ele por aquele filme… Como é o nome mesmo? Amizade Colorida.
Assistimos ao filme como um belo par de amigos de cinco ou até mesmo dez anos. Você me encarava quase o filme todo, e quando eu olhava pra você, você dava aqueles sorrisos marotos que acabam com qualquer garota. Me segurei o tempo inteiro pra não pular em cima de você e fazer tudo o que eu queria fazer naquele momento. Você se entrelaçou sobre mim, e meu coração veio na boca e subiu aquele calor bem gelado no meu corpo todo e fiquei me perguntando e quase me socando e dizendo: “Fica quieta, sem tremer, sem nervoso, pelo amor de Deus, larga de ser idiota” Mas não da pra controlar. Merda. Você deve pensar que sou aqueles tipos de garotas que não se interessaria por um cara de 20 anos de idade com barba meio falhada e aqueles cabelos grisalhos estilo modelo. Para você, eu era simples, sem muita frescura. Sei lá né. Ainda não sei o que se passa pela sua cabeça. Depois desse dia, desse filme, dessas risadas, e desses calafrios e bobaseiras todas, a gente continuou se falando semanalmente, e eu, toda feliz, mas sem pensar no que poderia dar. Chegou em um momento em que eu te queria por perto o tempo inteiro, que, ficar com você, se tornou uma necessidade sem fim, e eram horas e horas e madrugadas a fim em frente a uma tela de celular ou de computador esperando algum sinal de você. Eram risadas que não acabavam mais e saídas todas as segundas e sexta-feiras. Foram exatamente 9 meses e 27 dias repetidamente todas as semanas e todas as segundas e sextas feiras sem descontar nenhuma, sem tirar as outras no celular e no computador, em que eu via você, e tinha prazer de ver aquele sozinho que…nossa, aquele sorriso! Ficava horas me perguntando se, da mesma forma com que eu pensava em você, você pensava em mim. “Agora é sobre nós dois” Que nós dois? Eu e você, mas aquele eu e você sem junção alguma e completamente separados por um “E” que não tinha fim algum. Até que um dia você me ligou completamente desesperado precisando urgentemente falar comigo, e eu, como mulher, fiquei preocupada pensando em milhões de possibilidades do que você poderia estar fazendo ou o que teria acontecido com você. Fui correndo pra sua casa e você abriu a porta e não pensou nem duas vezes em me puxar pelo braço e me jogar no sofá. Você deu aquele típico showzinho de gaguejamento, eu acho, que se você participasse de um campeonato de gagos, você iria ganhar sem dúvida alguma. Eu comecei a rir como se, nossa, como se eu tivesse em um stand-up, aquele seu nervosismo me fazia rir e rir cada vez mais de uma maneira que te deixasse irritado. E você disse, disse que queria ficar comigo e aquela minha gargalhada continua parou em questão de segundos e eu fiquei completamente paralisada de olhando e me perguntando por que diabos você estava falando aquilo para mim. Porque diabos você estava fazendo aquela brincadeira comigo, mas ao mesmo tempo, você estava sério, com as suas duas mãos em cima da cabeça, sentado no sofá e balançando suas pernas como se estivesse nervoso. Pela primeira vez, eu não acreditei em você. Sai pela porta da frente sem dizer uma palavra alguma, sai sem olhar nos seus olhos, sai te vendo sentado no sofá como se você sentisse que tivesse perdido algo.
Eu fui embora, e eu devia ter ficado, devia ter te abraçado e falado tudo o que eu também, sentia por você. Passaram-se duas semanas e nada de você. Nenhum sinal de vida, nada de você me telefonar de mandar um sms, ou de, de dizer que gostava de mim como não gostava de mais ninguém. Senti sua falta em apenas 2h de deixa. E já eram duas semanas. Eu tinha que ir atrás de você e fui, fui, e te encontrei deitado na cama sem camisa e enrolado no lençol com o quarto todo escuro. Eu fiz uma cópia da chave do seu apartamento sem que você soubesse, e ela era minha jóia preciosa. Te encontrei lá, deitado, de barriga pra cima e a cabeça de lado. Até que, sei lá, meio que, me bateu aquela sensação louca e de impulso e deitei sobre teu peito, você acordou assustado que nem criança e eu te acalmei, você logo dormiu de novo, e me abraçou como nunca tinha abraçado antes então, dois minutos depois sem pensar nem duas vezes, eu disse:
“Vem. Da um cheiro, um beijo.”

